quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Por que comecei este blog?

Em 2011 iniciava-se o momento mais difícil de minha vida. 
Considerando tudo que já vivi, não foi simples justificar racionalmente o porquê de algo aparentemente tão mais corriqueiro como um relacionamento amoroso que deu errado comparado a, por exemplo, 9 horas seguidas de tortura ter sido o mais difícil de viver. 
Depois de muito ponderar sobre o porquê disso, concluí que o diferencial não foi apenas a gravidade do que me aconteceu, mas sim a capacidade, a estrutura que eu tive de passar por aquilo.

A dor foi insuportável demais e humanamente impossível de processá-la de forma, digamos, saudável. Senti-me perdendo a razão, a sanidade. Auto controle era impossível na maior parte do tempo. Isso inclui auto preservação e mecanismos de administração e enfrentamento de problemas, tomadas de decisão, entre outros. 

O tempo todo a dor transbordava, os pensamentos passavam corridos e incessantes, impossíveis de silenciar. Meu corpo era como uma prisão onde minha mente me torturava sem dar trégua. Eu só podia escapar quando dormia.Como forma de terapia, aconselhada por minha terapeuta na época, passei a escrever e isso ajudou muito. Brincava que era minha 'escrito terapia'. Chamei o blog de minha auto auto ajuda (e mais pra frente pretendo explicar isso...risos). Não mantive os escritos apenas para mim porque era muito importante ter a sensação de ser ouvida e compreendida, mesmo que ninguém nunca me fosse ler.O que mais importava era a sensação de não estar imóvel e silenciada. Era como lançar uma garrafa com uma mensagem ao mar e seria muito pior conviver com o fato de que eu nada havia feito para ser ouvida fora da minha ilha.
Antes de ficar suicida, fiquei incapacitada, de cama e, em seguida, passei a me auto mutilar. 
Sou uma pessoa muito racional e equilibrada e, percebo hoje, também muito forte e não entendia o porquê de ficar tão irracional e descontrolada.
Já havia tido episódios de depressão e tentativas de suicídio duas vezes antes ao longo da vida. Mas eu nunca havia me machucado apenas com o intuito de aliviar a dor sem intenção de me matar. E eu também, antes deste último episódio, acreditava que havia desenvolvido uma compreensão plena deste estado e tornado-me apta a nunca cair nele de novo.Esses dois fatores contribuíram muito para o aumento da dificuldade em lidar com a situação e para o agravamento da confusão mental e emocional em que me encontrava.

De lá para cá, busquei aprender o máximo possível sobre depressão e quadros psiquiátricos em geral, principalmente, sobre o meu. Queria entender o que estava acontecendo comigo e tentar ficar bem novamente.
Ainda estou lutando contra esta doença e talvez tenha que lutar pro resto da vida. A sensação é que algo 'quebrou' dentro de mim.Tive uma breve melhora, cheguei até a conseguir a trabalhar de novo, mas voltei a ficar incapacitada. Acredito até que por ter me esforçado demais quando ainda não estava 100% recuperada. Neste meio tempo, passei fome, desenvolvi diversos problemas de saúde e perdi muitos bens materiais e oportunidades. 

Acredito que não importa tanto assim se as coisas que acontecem na vida aconteçam por um motivo, se são boas ou ruins. Para mim, o que importa de fato é o que fazemos com essas coisas. Pessoalmente, eu procuro transformar (destaco: na medida do possível) tudo em aprendizado e inspiração para construir coisas novas e produtivas.
Além de ser uma forma de estancar a sangria, anestesiar a dor e tentar organizar as idéias e dissecar os acontecimentos, quando eu comecei o antigo blog, eu também tinha a intenção de conscientizar sobre a realidade das questões envolvidas nesta temática toda e servir como suporte e informativo para outras pessoas tentando sobreviver a situações e sofrimentos parecidos.
Como eu mal estava em condições de qualquer coisa, os textos no blog original foram colocados sem revisão, sem ordem e atrelados a um e-mail inadequado, além de expor coisas e pessoas que eu não gostaria de ter exposto.
Estou incapacitada, mas, ainda assim, não tão mal quanto antes. E estar incapacitada me impede de fazer o que eu sempre senti muita necessidade de fazer: produzir.
Aos poucos, quero tentar retomar todos meus projetos e estou começando pelo que consigo fazer de cama, de casa, sem horário ou carga de trabalhos estipulados e, assim, sentir-me menos improdutiva dentro de minhas limitações.
E, se por um lado a necessidade de escrever para lidar com a dor não existe mais, ainda segue a vontade de servir como suporte e informação para outras pessoas, mas, desta vez, de forma mais organizadinha ^^
Se eu ajudar uma única outra pessoa, seja a não machucar levianamente o próximo, seja a passar por um período de depressão profunda, já terá valido a pena. 




Nenhum comentário:

Postar um comentário

Críticas EDUCADAS são bem vindas e serão SEMPRE publicadas mesmo que desagradem o dono do blog. Palavrões são permitidos desde que não sejam utilizados de forma a ofender ou atacar pessoas, seja o autor do post ou de comentários. Promovemos o debate consciente e responsável na internet.Seu comentário apenas será bloqueado se não seguir parâmetros éticos mínimos de respeito e cordialidade.