quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Monogamia pra que(m)?

  Não pretendo esgotar o assunto neste texto, mas apenas ensaiar uma introdução e deixar reflexões iniciais.
Começo esclarecendo que o motivo pelo qual eu trabalho esta questão é para divulgar informações e esclarecer as pessoas sobre o assunto para,justamente, livrá-las de imposições e não para trazer mais uma variação de imposição, mais uma fórmula pronta de se relacionar sexual/amorosamente.
A gente não manda em sentimentos e relacionamento é algo ultra pessoal e que só diz respeito a quem se relaciona (desde que não fira terceiros). Tendo respeito e consentimento mútuo, toda forma deve ser validada, reconhecida e respeitada, incluindo-se aí a monogamia.
Dito isso,a minha 'briga' é com duas coisas:

  •  o uso de argumentos falhos para definir, sustentar ou defender monogamia 
  • o fato de que a monogamia é hoje  o 'modo default' na sociedade; as pessoas são condicionadas nisso e crescem só conhecendo isso. Sendo assim, quando as pessoas começam a se relacionar, a monogamia não é, de fato, uma alternativa ou uma escolha consciente dentre muitas. Eu divulgo as alternativas para promover que um dia a monogamia possa ser, de fato, apenas um dentre inúmeros acordos possíveis.
"O amor livre é livre até para ser monogâmico"

Só que não. Monogamia e liberdade não combinam. Monogamia é imposição e deste fato não se pode escapar. É por esta razão que não me refiro à monogamia como escolha ou como uma relação livre, mas como um acordo entre as partes.
Vamos entender isso melhor: 
A monogamia pode ser o jeito de duas pessoas serem felizes e se realizarem amorosamente ou sexualmente? Sim. Quem pode determinar isso? Os envolvidos no relacionamento-e só. 
A monogamia não é, por si só, intrinsecamente errada ou certa, ruim ou boa. Monogamia é, tão somente, UM dos acordos que você pode firmar com a pessoa com quem você se relaciona, assim como combinar de  nunca fazer sexo anal, nunca deixar toalha molhada em cima da cama, sempre avisar ou perguntar se pode sair no sábado, nunca ter filhos, nunca ter animais de estimação...
Dentro de um contexto  onde as pessoas conhecem muito bem e sem preconceitos inúmeras formas de se relacionar (como a gente também conhece alternativas aos outros acordos listados de forma relativamente mais livre de juízos de valor universalizados), é possível que o casal sim, escolha firmar o acordo da monogamia. Mas a monogamia é, em si, por definição, uma imposição. é a imposição, a proibição do parceiro de ter algum relacionamento sexual ou amoroso com um terceiro, ainda que o casal opte por ela.A monogamia vem com um pacote de proibições e imposições que varia em uma escala que vai de um extremo a outro do espectro, podendo contemplar o parceiro olhar para o lado e até se apaixonando DESDE QUE não vá às vias de fato até a proibição de amizades, exigência de acesso a senhas, proibição de pornografia...
Há aí uma sutil diferença entre combinar algo com alguém e estipular proibição sobre alguém. Se existe imposição e proibição, onde está a liberdade nisso?
Ao entrar neste mérito, noto uma confusão recorrente nas pessoas em alguns argumentos. O mais comum é dizerem alguma variação de: "Mas eu estou feliz assim" ou "Mas  a gente só quer mesmo ficar um com o outro e mais ninguém". 
Mas monogamia não é isso. O que define monogamia não é você querer apenas um parceiro, nem como os seus desejos e sentimentos estão, mas sim você não poder ter mais um parceiro nem passar a estar de outro jeito. Querer  aqui é a palavra chave para o conceito de liberdade nas relações verdadeiramente livres.
Veja, nada lhe impede de ficar só com o seu namorado/marido/esposa ou o que seja por semanas, meses, anos ou até para sempre. SE assim você QUISER. O que muda, então?
Muda que, caso você, de repente, também queira beijar, ficar, namorar, transar, morar ou o que for com mais um outro alguém em algum momento de sua vida, essas possibilidades existem, não são tabu e nem significam que você automaticamente será denominado vadia/corno/canalha e despejado de casa, sofrer divórcio, passar vontade, sofrer por abrir mão de alguém que ainda ama ou gosta ou se apaixonou...
O que muda é que em um relacionamento livre, os envolvidos reconhecem que:
É possível sentir uma variedade de coisas diferentes por pessoas diferentes em igual ou variadas intensidades sem que isso signifique ausência ou diminuição de sentimento
É possível que, ao longo de 30 anos de casamento (por exemplo), muito embora não se deixe de amar o parceiro, encontremos alguém especial com quem, às vezes por carinho ou só uma única vez, queiramos partilhar um beijo e nem por isso queremos terminar um relacionamento lindo e sólido de 30 anos.
Existem bilhões de pessoas no mundo. Muitas são apaixonantes e não queremos impedir quem amamos de viver esses outros amores, paixões e experiências.
Dentre muitas outras coisas que veremos em posts futuros.
Nada te impede de, caso não pinte ninguém nem nenhuma dessas vontades ou sentimentos, de ficar só com aquela pessoa. Mas isso será única e exclusivamente porque VOCÊ assim QUIS, de fato. Não porque o outro te proibiu de. É, portanto, plenamente possível estar bem e feliz apenas com uma única pessoa agora ou para o resto da vida em uma relação livre. Basta assim querer.
Se de fato é apenas uma questão de querer, fica a reflexão de hoje: por que a necessidade da proibição?Por que e para que impor a monogamia ao parceiro?

Como complemento para a reflexão, recomendo ouvir as seguintes músicas:

Raul Seixas - A Maçãhttps://www.youtube.com/watch?v=J7w7qC_0Ihs

Se esse amor ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor, vai se gastar

Se eu te amo e tu me amas
E um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais

Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa no altar

Quando eu te escolhi para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma, ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi que além de dois existem mais
O amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro mas eu vou te libertar
O que é que eu quero se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar

Raul Seixas - Medo da Chuva https://www.youtube.com/watch?v=w1G3rqVil1s

"É pena
Que você pense que eu sou seu escravo
Dizendo que eu sou seu marido
E não posso partir
Como as pedras imóveis na praia
Eu fico ao teu lado sem saber
Dos amores que a vida me trouxe
E não pude viver

Eu perdi o meu medo
Meu medo, o meu medo da chuva
Pois a chuva voltando pra terra
Traz coisas do ar
Aprendi o segredo
O segredo, o segredo da vida
Vendo as pedras que choram
sozinhas no mesmo lugar

Porque quando eu jurei meu amor eu traí a mim mesmo. Hoje eu sei que ninguém nesta vida é feliz tendo amado uma vez"


Queen- "Too Much Love Will Kill You": https://www.youtube.com/watch?v=ivbO3s1udic

I'm just the pieces of the man I used to be
Too many bitter tears are raining down on me
I'm far away from home
And I've been facing this alone
For much too long

I feel like no one ever told the truth to me
About growing up and what a struggle it would be
In my tangled state of mind
I've been looking back to find
Where I went wrong

Too much love will kill you
If you can't make up your mind
Torn between the lover and the love you leave behind
You're headed for disaster 'cos you never read the signs
Too much love will kill you every time

I'm just the shadow of the man I used to be
And it seems like there's no way out of this for me
I used to bring you sunshine
Now all I ever do is bring you down

How would it be if you were standing in my shoes
Can't you see that it's impossible to choose?
No, there's no making sense of it
Every way I go I'm bound to lose

Too much love will kill you
Just as sure as none at all.
It'll drain the power that's in you
Make you plead and scream and crawl
And the pain will make you crazy
You're the victim of your crime
Too much love will kill you every time

Too much love will kill you
It'll make your life a lie
Yes, too much love will kill you
And you won't understand why
You'd give your life, you'd sell your soul
But here it comes again
Too much love will kill you
In the end...
In the end.








Por que comecei este blog?

Em 2011 iniciava-se o momento mais difícil de minha vida. 
Considerando tudo que já vivi, não foi simples justificar racionalmente o porquê de algo aparentemente tão mais corriqueiro como um relacionamento amoroso que deu errado comparado a, por exemplo, 9 horas seguidas de tortura ter sido o mais difícil de viver. 
Depois de muito ponderar sobre o porquê disso, concluí que o diferencial não foi apenas a gravidade do que me aconteceu, mas sim a capacidade, a estrutura que eu tive de passar por aquilo.

A dor foi insuportável demais e humanamente impossível de processá-la de forma, digamos, saudável. Senti-me perdendo a razão, a sanidade. Auto controle era impossível na maior parte do tempo. Isso inclui auto preservação e mecanismos de administração e enfrentamento de problemas, tomadas de decisão, entre outros. 

O tempo todo a dor transbordava, os pensamentos passavam corridos e incessantes, impossíveis de silenciar. Meu corpo era como uma prisão onde minha mente me torturava sem dar trégua. Eu só podia escapar quando dormia.Como forma de terapia, aconselhada por minha terapeuta na época, passei a escrever e isso ajudou muito. Brincava que era minha 'escrito terapia'. Chamei o blog de minha auto auto ajuda (e mais pra frente pretendo explicar isso...risos). Não mantive os escritos apenas para mim porque era muito importante ter a sensação de ser ouvida e compreendida, mesmo que ninguém nunca me fosse ler.O que mais importava era a sensação de não estar imóvel e silenciada. Era como lançar uma garrafa com uma mensagem ao mar e seria muito pior conviver com o fato de que eu nada havia feito para ser ouvida fora da minha ilha.
Antes de ficar suicida, fiquei incapacitada, de cama e, em seguida, passei a me auto mutilar. 
Sou uma pessoa muito racional e equilibrada e, percebo hoje, também muito forte e não entendia o porquê de ficar tão irracional e descontrolada.
Já havia tido episódios de depressão e tentativas de suicídio duas vezes antes ao longo da vida. Mas eu nunca havia me machucado apenas com o intuito de aliviar a dor sem intenção de me matar. E eu também, antes deste último episódio, acreditava que havia desenvolvido uma compreensão plena deste estado e tornado-me apta a nunca cair nele de novo.Esses dois fatores contribuíram muito para o aumento da dificuldade em lidar com a situação e para o agravamento da confusão mental e emocional em que me encontrava.

De lá para cá, busquei aprender o máximo possível sobre depressão e quadros psiquiátricos em geral, principalmente, sobre o meu. Queria entender o que estava acontecendo comigo e tentar ficar bem novamente.
Ainda estou lutando contra esta doença e talvez tenha que lutar pro resto da vida. A sensação é que algo 'quebrou' dentro de mim.Tive uma breve melhora, cheguei até a conseguir a trabalhar de novo, mas voltei a ficar incapacitada. Acredito até que por ter me esforçado demais quando ainda não estava 100% recuperada. Neste meio tempo, passei fome, desenvolvi diversos problemas de saúde e perdi muitos bens materiais e oportunidades. 

Acredito que não importa tanto assim se as coisas que acontecem na vida aconteçam por um motivo, se são boas ou ruins. Para mim, o que importa de fato é o que fazemos com essas coisas. Pessoalmente, eu procuro transformar (destaco: na medida do possível) tudo em aprendizado e inspiração para construir coisas novas e produtivas.
Além de ser uma forma de estancar a sangria, anestesiar a dor e tentar organizar as idéias e dissecar os acontecimentos, quando eu comecei o antigo blog, eu também tinha a intenção de conscientizar sobre a realidade das questões envolvidas nesta temática toda e servir como suporte e informativo para outras pessoas tentando sobreviver a situações e sofrimentos parecidos.
Como eu mal estava em condições de qualquer coisa, os textos no blog original foram colocados sem revisão, sem ordem e atrelados a um e-mail inadequado, além de expor coisas e pessoas que eu não gostaria de ter exposto.
Estou incapacitada, mas, ainda assim, não tão mal quanto antes. E estar incapacitada me impede de fazer o que eu sempre senti muita necessidade de fazer: produzir.
Aos poucos, quero tentar retomar todos meus projetos e estou começando pelo que consigo fazer de cama, de casa, sem horário ou carga de trabalhos estipulados e, assim, sentir-me menos improdutiva dentro de minhas limitações.
E, se por um lado a necessidade de escrever para lidar com a dor não existe mais, ainda segue a vontade de servir como suporte e informação para outras pessoas, mas, desta vez, de forma mais organizadinha ^^
Se eu ajudar uma única outra pessoa, seja a não machucar levianamente o próximo, seja a passar por um período de depressão profunda, já terá valido a pena.